terça-feira, 4 de maio de 2021

Carta de um leitor: O meu ex-namorado abusou de mim de todas formas possíveis.

Eu postei dois textos aqui no blog sobre algumas experiências que eu tive em determinados momentos da minha vida, por estar dentro de um relacionamento onde eu muito dava e nada ou pouco recebia do meu companheiro, de pegar diversos flertes dele com outros caras e me sentir culpado por reagir contra isso, e até mesmo de aceitar uma traição, ter feito uma auto-sabotagem total, enfim, me submetido à um namoro realmente muito nocivo. Um leitor meu, que me acompanha aqui neste espaço desde 2013, os leu e disse ter se identificado muito com as situações que eu vivi, e me pediu para fazer um post com um depoimento dele aqui, me pediu também para alterar os nomes de todos os envolvidos para evitar a exposição, ele quer ser ouvido, sente que precisa disso, mas não tem ainda a coragem de se expor tanto. Então vamos ao texto, de uma situação que realmente aconteceu, os nomes e locais são fictícios em respeito a ele, e eu espero do fundo do meu coração que ele se sinta melhor com isso, colocando esses sentimentos para fora:


"Meu nome é Hitalo, e eu vivi um relacionamento onde desde o princípio eu tive muita dor de cabeça com meu ex namorado, o Paulo, porque ele gostava de estar rodeado de contatinhos, dava moral pra bastante gente na internet, as ações dele iam desde ficar elogiando ex ficantes, receber nudes no Instagram e não cortar esse tipo de atitude, até efetivamente me trair com outra pessoa em uma época inclusive que ele sabia que eu estava tendo uma crise depressiva e ataques fortíssimos de ansiedade por conta da pandemia. Eu amava o Paulo, eu realmente fazia de tudo por ele, as demonstrações de afeto eram inúmeras, eu estava desempregado e recebia uma quantia muito baixa em dinheiro da minha mãe, e todo esse dinheiro ficava na geladeira dele, que quase sempre só tinha água tirada da torneira, algumas poucas verduras velhas e uns limões já secos, ele estava cheio de dívidas e vê-lo naquela situação me doía muito, então nem comigo eu gastava mais. Minha família era igualmente preocupada com ele, houve um tempo que ele esteve fora a trabalho e que de dois em dois dias, eu pegava 4 ônibus públicos para alimentar o gato dele, o Mingau, em plena pandemia, eu poderia ter morrido, trazido a doença para dentro da minha casa, perdido membros da minha família e carregado a culpa por isso, a ingratidão que ele teve não só por isso, mas por tudo o que fizemos por ele, demonstrada ao fazer o que fez comigo é algo que me dói até hoje, eu realmente não merecia passar pelas situações que eu passei. Embora a gente tivesse um relacionamento cheio de altos e baixos, e a maior parte dos baixos foram causados pela falta de honestidade dele comigo, meses antes de tudo desmoronar, um pouco antes, o Carnaval de 2020 foi um dos momentos que estávamos bem.

A gente decidiu passar o Carnaval na nossa cidade, até porque a gente não tinha grana pra viajar, ele morava perto de dois eventos que estavam rolando, o da praça Universal e o da praça Patriótica, a gente decidiu passar pelos dois eventos, nós fomos a pé mesmo, com alguns amigos, meus e dele, no meio dos bloquinhos. Foi um dia onde a gente se divertiu muito, mas que a gente bebeu muito também, então com clareza de memórias eu só lembro do primeiro evento, do segundo evento eu não lembro de nada, e as outras memórias que vem são poucos flashes do nosso caminho de volta para a casa dele, e o que acabou acontecendo depois. Quando eu disse que bebemos muito, não é exagero, a gente bebeu das 14h00 da tarde até aproximadamente 23h00 da noite, eu estava visivelmente mais bêbado que ele, eu estava tão tonto que no caminho de volta eu cheguei a dar de cara com o muro de uma universidade privada. Ao chegarmos na casa dele eu me lembro de já ir direto pro colchão do quarto dele, por que ele não tinha uma cama ainda, e ali eu já estava quase dormindo, inconsciente, embriagado para além da conta, ele começou a tirar a minha roupa dizendo que estava quente demais ali, que a roupa estava suja porque a gente tinha passado o dia inteiro na rua, que eu ia me sentir mais confortável dormindo sem ela, e a tirou do meu corpo com muita dificuldade, porque eu não conseguia me movimentar. Ele me deixou nú, falou que ia buscar uma água pra mim beber, e que depois ele iria tomar um banho, eu antes de beber a água, apaguei!

Me lembro de acordar, ali sim realmente inconsciente, sendo penetrado por ele. Sabe quando você está meio dopado, não consegue falar, se movimentar, mas consegue ver o que está acontecendo? Eu lembro dele estar transando comigo imóvel e com os olhos pouco abertos, a minha boca estava totalmente aberta como se eu estivesse roncando. Assim como eu não me movi enquanto ele tirava a minha roupa momentos antes, eu não me movi enquanto ele estava transando comigo, eu lembro dele levantar o peso do meu corpo, dele levantar a minha perna, puxar meus braços, me mudar de posição algumas vezes, não foi uma transa rápida. Eu tenho muita certeza de como aconteceu, o que aconteceu, e foi exatamente da maneira que eu te conto aqui. Depois, mais consciente, acordado transamos outras vezes, mas eu voltei pra minha casa pensando nisso tudo que havia acontecido, ainda muito confuso se tinha acontecido daquela maneira mesmo, me negando, passando pano pra ele. O que eu pensava naquela época e justificava aquele ato, era o fato de sermos namorados, porque ele me amava, e se ele me amava, ele não fez por mal, mas o que aconteceu foi um crime, além de todo abuso emocional que eu passei naquele relacionamento, eu fui estuprado pelo meu namorado. 

Eu cheguei a perguntar pra ele se ele lembrava do que tinha acontecido, e a conversa que eu tive com ele acaba mais ou menos com ele me dizendo as seguinte palavras - 'Eu lembro que foi bom pra caralho, porque você estava super relaxado e ainda era um fetiche meu antigo... Mas depois fiquei pensando no outro dia se foi certo, acho que foi a experiência mais excitante que eu já tive.' A partir desse momento eu me neguei em ver com maldade o que ele havia feito porque o Paulo me amava, ele sentia prazer por mim, ele jamais me faria mal de propósito, eu até encarei o que tinha acontecido como um fetiche mesmo, pra normalizar o que ele tinha feito, a única coisa que justificava aquilo tudo era o sentimento que ele dizia ter por mim, mas lendo os dois textos que você escreveu sobre abuso emocional dentro dos relacionamentos, eu entendi que eu nunca fui amado, eu estava amando sozinho. Acho que foi isso mesmo que aconteceu, uma auto negação, mas no fundo eu sabia que o que havia sido feito não era certo comigo, eu cheguei a conversar um pouco na época sobre como eu estava me sentindo estranho sobre o ocorrido, com um amigo meu, o Augusto, que sempre me abriu os olhos sobre a relação tóxica que eu estava vivendo, o Augusto já me disse tanta coisa e eu não ouvi, sobre o abuso sexual eu até guardei no meu e-mail dia 20 de fevereiro de 2020, que foi o mês que isso aconteceu, uma conversa minha no WhatsApp com o Paulo, onde ele assume o que fez, até hoje eu me pergunto o motivo pelo qual eu senti que deveria guardar aquela conversa, talvez seja porque eu tinha que fazer algo a respeito, e não tive coragem, não fiz por amor!

As pessoas que convivem com ele, assim como no texto que você falou sobre a inversão de culpa depois das traições, acham que eu sou sou louco, desequilibrado, ciumento, abusivo, mas porque não escutaram a minha versão da história, não sabem um terço do que eu tive que passar nessa relação, ao tanto que me submeti por gostar de alguém que estava aos poucos me destruindo e me tornando inseguro. Essas mesmas pessoas, quando comecei a me relacionar com ele, ressaltaram o quanto ele era alguém legal e que valeira a pena eu investir, então eu sempre vou ser visto como o errado da história, porque tive minhas as histerias expostas quando reagi as muitas pisadas de bola dele comigo, porque ele fez Filosofia em uma universidade pública, é "preocupado" com ética do serviço social, é todo intelectual sobre as injustiças históricas do mundo, trabalha com causas humanitárias, e eu o consumidor de blog fashion, emocionado demais, desequilibrado, ciumento, neurótico, abusivo, mas ninguém sabe o quanto eu lutei para passar por cima de todos esses abusos, porque eu acreditava que conseguiria mudá-lo, melhorá-lo, por achar que ele não era mal intencionado no que estava fazendo comigo, até mesmo pra mim não acordar do sonho cor de rosa que eu achei que pudesse viver ao lado dele, pra provar pra mim mesmo que eu não estava enganado sobre o quão bom eu achei que ele fosse, eu lutei pra ter um relacionamento com ele até o último momento, pra mais do que poder dar uma outra chance pra ele, que hoje olhando para trás eu acho que ele nem fazia questão, mas pra dar uma chance pra mim de ver que eu não era o problema que ele pintava que eu fosse e acreditei ser,  para eu não ver que fui brutalmente usado e abusado por uma pessoa que eu amava, e talvez ame e pro meu bem eu tenha que deixar de amar, porque apesar de tudo o que me foi feito, apesar do desabafo mais do que necessário pro meu coração que eu pedi para você publicar no seu blog, eu ainda consigo ficar feliz por saber que ele está feliz, e ainda sinto falta da pessoa que eu achei que ele fosse, da risada escandalosa, da intelectualidade sobre tantos assuntos, sobre o talento que ele tem pra música, do abraço... do olhar que ele me lançava como se eu fosse especial para ele. É, realmente você está certo Reberth, é importante cair fora de relacionamentos assim nos primeiros sinais, nas primeiras noites mal dormidas, nos primeiros sintomas de sofrimento, pra não chegar no nível que estou hoje, destruído por um boy, fazendo terapia toda segunda-feira, me sentindo desvalorizado, traído, abusado, usado, e descartado, não conseguindo se quer denunciar um cara que me fez o mal de um abuso sexual, porque dentro de mim eu ainda carrego de tonto que sou o sentimento de que eu o amo. Eu fui envolvido a um ponto que fiquei mais do que passivo nas situações, eu fui permissivo aos abusos, eu fiquei mudo sobre tudo o que rolou, com o sentimento de que nenhuma das amizades dele, e muitas amizades minhas não sabem o que realmente rolou comigo do começo ao fim dessa relação."

Reforço aqui, que a pedido da própria pessoa que escreveu o texto, que todos os nomes e localidades dos acontecimentos foram alterados para evitar a exposição dos envolvidos. Eu torço do fundo meu coração que o "Hitalo" consiga superar isso tudo, conheço a história dele, o coração dele, eu vi o quanto ele amava (ou talvez ame) esse ex namorado citado no desabafo, e que tanto o prejudicou. Eu sei que pela entrega e verdade dos sentimentos dele pelo "Paulo", ele não merecia tantas feridas e cicatrizes causadas por essa relação, ele merecia estar sendo muito feliz, eu realmente torço que ele consiga se abrir para o amor novamente, que volte a acreditar no amor, nas coisas que ele queria viver na vida dele, que ele acreditava ser possível viver. O "Hitalo" é um cara intenso, apaixonado, entregue, que se doa de verdade, que tinha o sonho lindo de se casar, de construir uma família, mas que se tornou depois disso tudo em alguém fechado, desconfiado, desacreditado. Eu espero de verdade que ele encontre alguém que o ame de verdade, que não o use, não o abuse e o fira da forma que ele nos contou nesta publicação. "Hitalo", que você consiga ter força e otimismo o suficiente para sair dessa e que seus sonhos possam ser sonhados novamente, e que eles possam ser reais um dia!

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