O Evangelho contra o Bolsonarismo: A Bíblia que a hipocrisia não quer enfrentar!

Uma reflexão cristã sobre a hipocrisia religiosa, o autoritarismo e a distância entre o discurso de fé e a prática do poder.

Há uma pergunta que todo cristão deveria ter coragem de fazer, independentemente de sua posição política: se Jesus Cristo voltasse hoje e encontrasse o modo como determinados líderes políticos utilizam seu nome, Ele reconheceria neles os valores que ensinou aos seus discípulos?

Não se trata de questionar a fé de cada brasileiro que se identifica com o bolsonarismo. A fé de uma pessoa é algo íntimo, e ninguém deveria ser julgado por frequentar uma igreja, interpretar a Bíblia de determinada maneira ou desejar uma sociedade mais conservadora. O problema começa quando um movimento político transforma símbolos cristãos em instrumentos de poder, reivindica para si o monopólio da moralidade e, ao mesmo tempo, demonstra tolerância com atitudes que entram em profunda contradição com o Evangelho.

O bolsonarismo construiu parte significativa de sua identidade pública sobre três palavras: Deus, Pátria e Família. Palavras nobres, capazes de representar sentimentos legítimos de milhões de brasileiros. Entretanto, palavras sagradas não tornam sagradas as atitudes de quem as pronuncia.

A pergunta não é quantas vezes um político menciona Deus, mas quantas vezes suas decisões refletem aquilo que Deus, segundo os Evangelhos, ensinou.

E é justamente nesse confronto entre discurso e prática que surgem algumas das contradições mais graves associadas à família Bolsonaro e ao movimento político que ela representa.

1. Jesus pregou o amor; o discurso de ódio não pode ser tratado como virtude cristã

O cristianismo não é apenas uma identidade cultural. É, sobretudo, um compromisso ético com o amor ao próximo, a misericórdia, o domínio da própria língua e a reconciliação.

Em Mateus 5:44, Jesus ensina:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”

Não é uma recomendação confortável. É uma exigência radical de quem pretende seguir Cristo. Amar apenas os semelhantes, respeitar somente os aliados e tratar os adversários como inimigos a serem destruídos não representa a plenitude desse ensinamento.

Ao longo de sua trajetória pública, Jair Bolsonaro ficou associado a declarações agressivas, provocações e falas discriminatórias que provocaram indignação e críticas de diferentes setores da sociedade. Sua retórica frequentemente confrontou adversários e grupos sociais de maneira que contribuiu para aprofundar a polarização política brasileira.

Não é necessário inventar palavras ou atribuir intenções ocultas para reconhecer o problema moral de uma linguagem pública que humilha, hostiliza ou desumaniza pessoas.

Provérbios 15:1 afirma:

“A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.”

E Efésios 4:29 recomenda que da boca não saia palavra prejudicial, mas somente aquilo que contribua para edificar.

É possível defender ideias firmemente sem insultar. É possível discordar sem humilhar. É possível combater a criminalidade sem transformar pessoas em alvos de desprezo.

Quando a agressividade se converte em espetáculo político, o cristão precisa perguntar se está diante de coragem moral ou simplesmente de violência verbal legitimada pelo aplauso de uma plateia.

Jesus não demonstrou fraqueza ao recusar o ódio. Demonstrou força ao não permitir que o ódio determinasse sua conduta.

2. Racismo e preconceito não combinam com a dignidade ensinada por Cristo

A Bíblia não autoriza que determinados grupos sejam tratados como seres humanos de segunda categoria. Pelo contrário, a mensagem cristã contém um princípio poderoso de igualdade espiritual e dignidade humana.

Gálatas 3:28 declara:

“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.”

Essa passagem não elimina as diferenças entre as pessoas. Ela questiona a utilização dessas diferenças como justificativa para estabelecer hierarquias de valor humano.

O histórico de declarações públicas de Jair Bolsonaro sobre pessoas negras, quilombolas e outros grupos minoritários alimentou acusações de racismo e discriminação. Suas falas devem ser examinadas em seu contexto, mas o debate moral não pode ser encerrado simplesmente porque o autor se apresenta como defensor da família ou da fé cristã.

O cristianismo não pode servir como escudo para a humilhação de pessoas por sua origem, cor ou condição social.

Tiago 2:1 adverte os cristãos contra a prática da fé com favoritismo. Pouco depois, Tiago 2:9 é ainda mais direto:

“Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado.”

Que testemunho cristão oferece uma sociedade na qual algumas pessoas são tratadas como dignas de respeito, enquanto outras são ridicularizadas por sua aparência, origem ou condição econômica?

Não existe verdadeira defesa dos valores cristãos quando a dignidade humana é distribuída conforme a conveniência política.

3. Homofobia: o amor cristão não pode ser seletivo

A forma como a sociedade trata pessoas LGBTQIA+ também revela a distância entre a mensagem de amor proclamada por muitas lideranças religiosas e a maneira como determinados discursos políticos tratam essas pessoas.

A família Bolsonaro tornou-se conhecida por declarações contrárias à população LGBTQIA+, especialmente por falas de Jair Bolsonaro que foram amplamente criticadas por seu conteúdo discriminatório.

É legítimo discutir convicções religiosas, interpretações bíblicas e políticas públicas. O que não é legítimo, do ponto de vista de uma ética cristã comprometida com a dignidade humana, é utilizar essas convicções para justificar humilhação, violência ou a negação do respeito devido a alguém.

Em João 13:34, Jesus ensina:

“Que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei.”

Jesus não apresentou o amor como recompensa concedida apenas a quem compartilha a mesma identidade, a mesma história ou as mesmas convicções.

Em Mateus 7:3-5, Ele também adverte contra a obsessão em apontar o erro alheio enquanto se ignora a própria responsabilidade moral.

Isso deveria levar qualquer comunidade cristã a uma reflexão honesta: por que tantas energias são dedicadas a condenar a existência de determinadas pessoas, enquanto a violência, a corrupção, a mentira e o abuso de poder parecem provocar indignação muito menor em alguns setores?

Não é possível transformar o sofrimento de uma minoria em instrumento de mobilização eleitoral e, ao mesmo tempo, apresentar essa estratégia como expressão inequívoca do amor de Cristo.

A fé cristã pode ser praticada com convicção sem que o preconceito se torne uma bandeira.

4. A corrupção e o escândalo da moral seletiva

Uma das questões mais graves para qualquer movimento que se apresenta como guardião da moralidade é a maneira como reage às suspeitas e acusações envolvendo os próprios integrantes.

O problema não é apenas a existência de investigações. Investigar alguém não significa provar sua culpa, e uma sociedade justa precisa preservar o direito de defesa e a presunção de inocência. O problema moral surge quando a transparência exigida dos adversários deixa de ser exigida dos aliados.

No caso da família Bolsonaro, diferentes controvérsias judiciais e investigações envolvendo integrantes do grupo alimentaram questionamentos públicos sobre patrimônio, movimentações financeiras e relações com interesses privados.

Flávio Bolsonaro, por exemplo, foi alvo de investigações relacionadas a suspeitas de irregularidades financeiras e ao caso conhecido como rachadinha, que envolveu movimentações de recursos de seu antigo gabinete parlamentar. Os desdobramentos judiciais desse caso foram marcados por controvérsias processuais, de modo que é necessário distinguir suspeitas, acusações e decisões judiciais definitivas. Mais recentemente, ele também passou a ser investigado em outro inquérito relacionado a suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo recursos associados ao financiamento de um filme sobre seu pai. Essas suspeitas não devem ser apresentadas como condenações definitivas. Reuters, setembro de 2026.

Mas a pergunta ética permanece: por que a corrupção é tratada como uma falha imperdoável quando atribuída ao adversário e como perseguição política quando envolve alguém do próprio campo?

Provérbios 11:1 declara:

“Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer.”

E Lucas 16:10 ensina que quem é fiel no pouco também é fiel no muito.

Essas passagens não permitem que a moralidade seja utilizada como arma seletiva. O princípio de honestidade precisa valer para todos, inclusive para aqueles que conquistam votos proclamando defender os bons costumes.

Em Mateus 23:27, Jesus compara os hipócritas a sepulcros caiados: belos por fora, mas diferentes em seu interior.

É uma advertência especialmente pertinente a qualquer liderança que constrói uma imagem pública de pureza moral sem aceitar o mesmo rigor ético para si.

A questão não é condenar antecipadamente todos os integrantes de uma família. É exigir que nenhum sobrenome, cargo ou discurso religioso esteja acima da responsabilidade pública.

5. O altar não pode ser transformado em balcão de negócios ou palanque eleitoral

A relação entre religião e política exige cuidado porque a igreja ocupa um lugar de confiança na vida de milhões de pessoas. Muitos chegam ao templo em momentos de luto, dificuldade financeira, doença, solidão ou desespero. Buscam acolhimento, orientação espiritual e esperança.

Essa vulnerabilidade não pode ser explorada como ferramenta de campanha.

É importante distinguir a participação legítima de religiosos no debate público da utilização abusiva de espaços de culto para pressionar fiéis, promover candidaturas ou associar a fidelidade a Deus à obrigação de votar em determinado político.

O mesmo vale para práticas comerciais que transformam a fé em mercadoria ou fazem do sofrimento espiritual uma oportunidade de lucro.

Em Mateus 21:12-13, Jesus expulsa os comerciantes do templo e denuncia a transformação da casa de oração em um lugar de exploração.

Em Mateus 6:24, afirma:

“Não podeis servir a Deus e às riquezas.”

Essas palavras não significam que igrejas não possam administrar recursos, pagar funcionários ou manter suas atividades. Significam que o dinheiro não pode ocupar o lugar da finalidade espiritual, nem a religião ser reduzida a um instrumento de enriquecimento ou influência.

Da mesma forma, não é necessário proibir pastores e fiéis de expressarem suas posições políticas para reconhecer que o púlpito não deveria ser transformado em máquina de propaganda eleitoral.

Quando o nome de Deus é utilizado para conferir autoridade sagrada a um candidato, cria-se um risco grave: o eleitor deixa de avaliar propostas, comportamentos e responsabilidades e passa a enxergar a escolha política como um teste de fidelidade religiosa.

Isso não é liberdade de consciência. É a instrumentalização da consciência.

O cristão deveria poder entrar em uma igreja sem ser constrangido a apoiar uma candidatura. Deveria poder discordar de um pastor sobre política sem ser tratado como inimigo de Deus.

O altar pertence à vida espiritual da comunidade; não deveria ser sequestrado por projetos pessoais de poder.

6. Defender a família significa cuidar de quem mais precisa

O discurso de defesa da família perde sua força moral quando ignora as condições concretas necessárias para que famílias sobrevivam com dignidade.

Famílias precisam de alimentação, moradia, saúde, educação, segurança, trabalho e proteção contra a violência. Crianças precisam de oportunidades. Idosos precisam de cuidado. Pessoas com deficiência precisam de acessibilidade. Quem perde o emprego precisa de condições para atravessar a dificuldade sem ser tratado como culpado por sua pobreza.

O cristianismo não ensina que a solidariedade deve ser reservada apenas aos que conseguem se sustentar sozinhos.

Em Mateus 25:35-40, Jesus identifica o serviço prestado aos famintos, aos estrangeiros, aos enfermos e aos encarcerados com o serviço prestado a Ele próprio.

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber.”

E, em Mateus 25:40, conclui que aquilo que foi feito ao menor de seus irmãos foi feito a Ele.

Essa é uma das passagens mais desafiadoras de todo o Evangelho porque desloca a espiritualidade do terreno das aparências para o terreno das ações.

A fé não se comprova apenas pela oração pública, pela frequência aos cultos ou pela defesa de símbolos religiosos. Ela também se manifesta na maneira como tratamos quem não tem poder para nos recompensar.

Políticas sociais e programas de assistência podem e devem ser discutidos quanto à eficiência, aos custos, à fiscalização e aos resultados. Uma política pública não se torna correta apenas por se apresentar como solidária, assim como não se torna imoral simplesmente por envolver o Estado.

Mas rejeitar indiscriminadamente a proteção social dos mais vulneráveis, desprezar os pobres ou tratar a assistência como favor concedido a pessoas inferiores é incompatível com o espírito de misericórdia que atravessa os Evangelhos escritos.

Em Tiago 2:15-17, a fé sem ações concretas diante da necessidade do próximo é apresentada como morta.

O apóstolo não pergunta qual é o partido de quem está passando fome. Não exige que a pessoa demonstre merecimento ideológico antes de receber ajuda.

Quem proclama a defesa da família precisa explicar que valor existe em defender a família como símbolo e abandonar famílias reais diante da fome, da miséria e da exclusão.

A solidariedade cristã não é uma fraqueza política. É uma responsabilidade moral.

7. Milícias, violência e o valor sagrado da vida

O debate sobre as relações entre a família Bolsonaro, integrantes das forças de segurança e pessoas associadas a grupos criminosos exige precisão. Não é correto afirmar, sem distinção, que todos os integrantes da família pertencem a milícias ou que toda relação política com alguém investigado constitui prova de participação criminosa.

Ainda assim, as controvérsias públicas envolvendo relações políticas e pessoais no Rio de Janeiro, inclusive aquelas discutidas no contexto do caso Marielle Franco e de pessoas associadas a milícias, levantam questões legítimas sobre a responsabilidade de figuras públicas em relação a quem escolhem apoiar, homenagear ou manter por perto.

Uma das principais exigências éticas da vida pública é não relativizar a violência quando ela parece beneficiar os próprios aliados.

O cristianismo não permite que a vida humana seja tratada como descartável.

Em Êxodo 20:13, lê-se:

“Não matarás.”

E, em Mateus 5:9, Jesus proclama:

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.”

Essas palavras não impedem a defesa da segurança pública, a investigação de crimes ou a punição legal de criminosos. Pelo contrário, uma sociedade segura precisa de instituições capazes de proteger a população e responsabilizar quem viola a lei.

O que elas impedem é a glorificação da violência como espetáculo, a celebração da morte como solução automática para problemas sociais e a concessão de tolerância moral a grupos violentos quando existe conveniência política.

A polícia precisa de respeito, estrutura, treinamento e proteção para cumprir seu dever. A população precisa de segurança. E as vítimas da violência, sejam elas policiais ou civis, precisam de justiça.

Nada disso exige transformar a morte em propaganda.

O Evangelho não ensina que a vida de alguém perde seu valor porque essa pessoa pertence a um grupo social desprezado ou porque se tornou alvo de uma disputa política.

A pergunta cristã não é apenas quem merece ser punido. É também como construir uma sociedade na qual a justiça prevaleça sem que a crueldade seja celebrada como virtude. Bandido bom segundo cristo não é bandido morto, é bandido convertido na graça e arrependido dos pecados que cometeu.

8. O plano de golpe de Estado e a contradição entre poder e humildade

Talvez uma das contradições políticas mais graves seja a tentativa de preservar o poder mesmo diante da vontade expressa nas urnas.

Em setembro de 2025, Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na trama golpista relacionada à tentativa de impedir a alternância democrática de poder após a eleição de 2022. A decisão representou um marco histórico, embora a defesa tenha contestado o julgamento e anunciado medidas contra a condenação. 

Não se trata de uma divergência banal sobre políticas públicas. Trata-se de uma questão fundamental: pode alguém afirmar defender a pátria enquanto participa de uma articulação destinada a subverter as instituições que garantem a soberania popular?

A democracia não é perfeita. Eleições não resolvem todos os problemas, e governos podem cometer erros graves. Mas a resposta legítima a um resultado eleitoral é a contestação pelos meios legais, a organização política, a fiscalização e a disputa de novas eleições — não a destruição das regras para conservar o poder.

Romanos 13:1-2 é frequentemente citado em debates sobre autoridade, mas a leitura bíblica não deveria ser reduzida a uma autorização irrestrita para governantes. A própria tradição profética apresenta inúmeras críticas a reis que abusaram do poder, exploraram os vulneráveis e abandonaram a justiça.

Em Marcos 10:42-45, Jesus confronta a lógica dos governantes que dominam os outros e ensina aos discípulos que a verdadeira grandeza deve ser expressa no serviço.

“Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva.”

O poder, na perspectiva de Jesus, não é um direito divino de mandar nos demais. É uma responsabilidade que precisa ser exercida em favor do próximo.

Um projeto de ruptura democrática representa, portanto, uma inversão profunda dessa lógica: em vez de servir à população dentro das regras comuns, pretende-se colocar a vontade de um líder acima da vontade coletiva e das instituições.

A defesa da pátria não pode significar a defesa incondicional de um governante. A pátria é maior que qualquer família, partido ou indivíduo.

E Deus não precisa que a democracia seja destruída para que a fé cristã sobreviva.

9. A admiração por torturadores e a banalização do sofrimento humano

A ditadura militar brasileira deixou um legado de graves violações de direitos humanos, incluindo torturas, mortes, desaparecimentos forçados e perseguições políticas. O sofrimento das vítimas e de seus familiares não pode ser apagado por conveniência ideológica.

Jair Bolsonaro tornou-se conhecido por elogiar publicamente figuras associadas à repressão da ditadura, incluindo o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador.

Essa admiração é profundamente problemática quando confrontada com a ética cristã, pois a tortura representa a utilização deliberada do sofrimento humano como instrumento de poder.

Em Mateus 7:12, Jesus ensina:

“Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós.”

Essa regra de ouro exige que nos coloquemos no lugar do outro. Não apenas no lugar de quem compartilha nossas ideias, mas também no de quem está vulnerável diante de uma autoridade.

Seria possível aceitar a tortura se a vítima fosse um filho, uma mãe ou um irmão? Seria possível considerar a humilhação física e psicológica uma virtude se a pessoa submetida a ela fosse alguém que amamos?

Se a resposta é não, então precisamos reconhecer que a dignidade humana não pode depender da posição política da vítima.

O cristianismo não exige que crimes sejam ignorados nem que a justiça deixe de responsabilizar os culpados. Exige que a punição não se transforme em sadismo e que a humanidade de ninguém seja apagada.

Em Mateus 5:7, Jesus declara:

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.”

A misericórdia não elimina a justiça. Ela impede que a justiça seja confundida com o desejo de fazer sofrer.

Por isso, a celebração de torturadores não pode ser tratada como um detalhe irrelevante na avaliação moral de um líder que reivindica para si os valores cristãos.

10. Eduardo Bolsonaro e o uso da pressão estrangeira na disputa política

A defesa da soberania nacional também precisa ser examinada à luz das atitudes concretas, e não apenas dos discursos patrióticos.

Em junho de 2026, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo, relacionada à atuação para pressionar autoridades norte-americanas a interferirem no julgamento de seu pai. A condenação foi fixada em quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto. 

O caso levanta uma questão séria sobre os limites entre a atuação política internacional e o uso de pressões externas para interferir em um processo judicial nacional.

É legítimo que representantes públicos mantenham relações internacionais, defendam posições políticas e critiquem decisões judiciais. A gravidade aparece quando a atuação ultrapassa esses limites e se torna instrumento de coação, conforme reconhecido na decisão judicial mencionada.

Como conciliar a defesa enfática da pátria com iniciativas que, segundo essa condenação, procuraram utilizar a pressão estrangeira no contexto de um julgamento brasileiro?

Em Mateus 6:21, Jesus ensina:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”

A passagem fala sobre as prioridades que revelam aquilo que realmente valorizamos. Na vida pública, ela inspira uma pergunta: o que deve prevalecer para um representante político — a responsabilidade para com o país e suas instituições ou a lealdade pessoal a um integrante da própria família?

O patriotismo cristão, se é que se pode usar essa expressão, deveria ser incompatível com a submissão da soberania nacional aos interesses particulares de qualquer líder.

A pátria não é propriedade de uma família. A Justiça não é um obstáculo a ser removido quando ameaça aliados. E o bem comum não pode ser sacrificado para proteger um projeto pessoal de poder.

11. A hipocrisia de “Deus, Pátria e Família”

As três palavras podem expressar valores importantes. O problema está em transformá-las em uma espécie de certificado automático de virtude.

Deus não pode ser utilizado para dispensar a responsabilidade moral.

Pátria não pode ser reduzida à obediência a um líder.

Família não pode ser invocada como símbolo enquanto a dignidade das famílias alheias é tratada como secundária.

O Evangelho não concede imunidade moral a quem pronuncia o nome de Deus. Pelo contrário, quanto maior a autoridade reivindicada em nome da fé, maior deveria ser a disposição de prestar contas dos próprios atos.

Em Mateus 7:16, Jesus ensina:

“Por seus frutos os conhecereis.”

O critério não é a estética da campanha, o número de fiéis reunidos em um comício, a quantidade de versículos citados ou a frequência com que um político aparece em templos.

O critério são os frutos.

Há respeito pela dignidade humana? Há compromisso com a verdade? Há disposição para reconhecer erros? Há cuidado com os pobres? Há rejeição da violência arbitrária? Há respeito às instituições e à vontade popular? Há coerência entre o discurso público e a conduta privada?

Essas perguntas devem ser feitas a todos os representantes públicos, independentemente da ideologia que professam.

Mas devem ser feitas com especial rigor àqueles que reivindicam uma autoridade moral superior por se apresentarem como defensores de Deus.

A fé não pode ser usada como maquiagem para o poder. E o nome de Jesus não deveria funcionar como um escudo contra perguntas legítimas.

12. O verdadeiro cristianismo não precisa de inimigos para existir

É importante concluir esta reflexão sem reproduzir a mesma lógica de hostilidade que se pretende criticar.

Nem todo bolsonarista é racista. Nem todo evangélico apoia discursos de ódio. Nem todo conservador é autoritário. Existem pessoas que apoiam o bolsonarismo por motivos econômicos, culturais, religiosos ou por desconfiança em relação a outras correntes políticas. Essas pessoas não devem ser tratadas como se compartilhassem automaticamente de todas as atitudes e controvérsias de seus líderes.

A crítica precisa ser dirigida às ideias, às condutas e às estruturas de poder — não à dignidade de quem pensa diferente.

Em João 8:32, Jesus afirma:

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Buscar a verdade exige coragem para investigar os próprios aliados, reconhecer fatos inconvenientes e abandonar certezas que não resistem ao exame da realidade.

Em 1 Coríntios 13:4-6, Paulo descreve o amor como paciente, bondoso e incompatível com a alegria diante da injustiça.

Esse amor não exige silêncio diante de crimes, discriminação ou abuso de poder. Exige que a denúncia seja feita sem mentiras, que a responsabilização respeite a lei e que a indignação não se converta em desejo de vingança.

É possível criticar Bolsonaro sem odiar seus eleitores. É possível denunciar a hipocrisia religiosa sem desprezar os cristãos. É possível defender a democracia sem desejar sofrimento a quem ameaça suas instituições.

O pacificador não é aquele que finge não ver o conflito. É aquele que enfrenta a injustiça sem abandonar a própria humanidade.

E é precisamente por isso que a crítica cristã ao bolsonarismo precisa ser firme: porque a paz não se constrói com a normalização da violência, porque a justiça não se sustenta em privilégios e porque a fé não deveria ser transformada em instrumento de dominação.

Conclusão: Jesus não está em campanha

O maior problema da apropriação política do cristianismo não é que determinados políticos frequentem igrejas, citem versículos ou se apresentem como conservadores. O problema é quando esses símbolos são utilizados para blindar comportamentos que deveriam ser submetidos ao mesmo exame ético aplicado a qualquer outra pessoa.

Jesus não construiu seu ministério prometendo poder aos que gritassem mais alto. Não ensinou seus discípulos a humilhar os diferentes. Não declarou que a riqueza era prova de superioridade moral. Não recomendou que a violência fosse celebrada, que a mentira fosse aceita quando conveniente ou que a autoridade de um governante valesse mais que a dignidade do próximo.

Ele lavou os pés dos discípulos. Acolheu os marginalizados. Alimentou os famintos. Confrontou a hipocrisia dos poderosos. Ensinou que a grandeza está no serviço e que o amor ao próximo não pode ser limitado por conveniências pessoais.

Em Mateus 22:37-39, resumiu os mandamentos no amor a Deus e ao próximo.

E em Mateus 7:21 deixou uma advertência que deveria ser lida com humildade por todos os que fazem da religião parte de sua identidade pública:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai.”

A passagem não autoriza ninguém a declarar quem será ou não salvo. Ela convida cada pessoa a examinar a distância entre aquilo que professa e aquilo que pratica.

É esse o ponto central.

Não cabe a nós determinar quem tem fé verdadeira no coração. Cabe-nos, porém, avaliar se as atitudes públicas de quem reivindica representar os valores cristãos são compatíveis com esses valores.

Se a defesa de Deus convive com o desprezo pelos vulneráveis, se a defesa da família convive com a discriminação, se o patriotismo convive com ataques à democracia e se o discurso moral convive com a tolerância seletiva diante de suspeitas de corrupção, então existe uma contradição que não pode ser escondida atrás de um versículo ou de uma cruz.

O cristianismo não é uma propriedade política. Jesus não pertence a uma família, a um partido, a uma igreja específica ou a um candidato.

A mensagem do Evangelho é maior que qualquer movimento e mais exigente que qualquer slogan eleitoral.

Por isso, talvez a pergunta mais cristã que possamos fazer diante do bolsonarismo — e diante de qualquer outro movimento que invoque o nome de Deus — não seja se seus integrantes falam sobre Jesus, mas se estão dispostos a agir de acordo com aquilo que Ele ensinou.

Porque Deus não precisa de propaganda.

A verdade não precisa de culto à personalidade.

A justiça não precisa de inimigos desumanizados.

E o amor ao próximo não pode ser uma promessa reservada apenas aos nossos semelhantes.

Se queremos defender Deus, Pátria e Família, precisamos começar defendendo a verdade mesmo que ela desfavoreça nossos ideais politicos, a dignidade humana de todo ser humano seja ele santo ou pecador, a democracia que nos garante o livre arbítrio, a misericórdia e a justiça. O resto é apenas discurso!

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